domingo, 22 de julho de 2012

Mergulho.

Cheguei ao consultório do analista que minha amiga havia recomendado. Ainda descrente, duvidando que pudesse obter algum resultado (sempre fui muito teimosa), mas tinha perdido uma aposta e aqui estava para pagá-la. Na sala de espera, uma mulher de olhar expressivo, lábios finos e um cigarro entre os dedos, aguardava. A fumaça deixava seu rosto enevoado, meio escondido. Falei com a recepcionista, logo, acomodei-me num sofazinho. Então a mulher foi encaminhada pela jovem para entrar. Continuei esperando.



Antes de levantar e seguir para sua consulta, a mulher amassou a ponta do cigarro no cinzeiro, tentando apagá-lo. Acompanhei-a com os olhos até sumir através da porta aberta. Automaticamente voltei a fitar o cigarro, não havia apagado por completo, uma pequena centelha ainda reluzia nele, muito fraca, mas insistente.


Continuei observando a pequena fagulha consumir lentamente o cigarro já amassado. Então, naquele instante, senti-me envolvida pela fumaça, fechei os olhos e percebi que começara a recordar de coisas já esquecidas, enterradas no passado. Algumas delas realmente não gostaria de lembrar.



Era como uma viagem através de uma nuvem de recordações. Tentei manter-me focada, atenta. Afinal, por que estava ali? Seria fácil mentir e não pagar a aposta, mas de alguma forma, apesar da descrença, continuava, sentia-me um tanto curiosa.


Mas falar sobre o que? Sempre fui tão normal! Uma família maravilhosa, muitos amigos, tinha profissão, trabalhava com o que gostava. Os amores... Sempre pensei como o poeta "que seja eterno enquanto dure", minha vida amorosa era tranquila, meu coração ficava reservado, protegido, mas o resto... Então lembrei da infância, talvez fosse melhor começar assim, pelo começo.


Contaria que senti muito orgulho de meu pai, meu herói de menina. Seus braços faziam sentir-me segura, protegida, mas ao mesmo tempo, livre. Então, ele foi tirado de mim, não me abraçou mais, não me protegeu mais, perdi minha liberdade, permaneci encarcerada a essa perda. Saudade, é um bom nome para definir minha prisão.


O que mais contar? Minha atitude agressiva após essa perda? Aprendi a defender-me sozinha. Brigava na escola, batia e apanhava. Era bem divertido! Tenho que confessar que tomei gosto pela coisa. (sorri).


Ah, o que mais falar? Minha vida é tão comum, corriqueira como a maioria.


Bom, talvez seja relevante citar meu primeiro relacionamento. Um garoto idiota que se achava o máximo. E eu, louca por ele. Namoramos... Não. Eu acreditava que namorava e ele se aproveitava. Então fui percebendo que esse sentimento só me trazia tristeza e muita angústia, resolvi matá-lo. O garoto e o sentimento. Pensei: "Ele morre, meu amor vai junto e fico livre dessa angústia". 


Então matei. Contei com a sorte e a perversidade do infeliz. Iludi, ofereci o que queria. Ele topou. Levei-o ao cemitério com a promessa de realizar seus desejos nefastos. Mas ele não sabia que naquele mesmo dia havia ido até lá para esconder uma pá num lugar estratégico. Foi de grande valia. Naquela noite, renasci. Mas definitivamente não poderia contar, continua sendo segredo. 
Nunca encontraram o malfeitor.


Então falarei sobre minha profissão. Estranha, errada, uma verdadeira aberração para muitos. O gosto por bater me mostrou que caminho tomar. Assim, bato naqueles que pedem, muita porrada! Dou, sim, adoro bater. Bato prá valer! Para a maioria ainda é pouco. Machistas filhos de ... que surram mulheres. Sinto prazer em quebrar suas caras cínicas. Gosta? Então toma! Surrinha caaara!


Será que conto? Talvez ache-me louca. Será?! Mas para mim chega a ser natural, comum! Gosto de bater, eles gostam de apanhar, simples! Complicar prá que?


Assustei-me com o barulho da porta, a mulher já havia saído do consultório, seria a próxima. Olhei para o cigarro, agora apenas uma bituca. Eu? Não sei. Talvez encare ser consumida por lembranças e traumas profundos, engolida por fumaça ou apenas pelas ondas num mergulho nas profundezas do meu oceano particular.


Texto registrado no Literar.org

sábado, 21 de julho de 2012

Indomável

Seria segredo se não tivesse espalhado para os quatro cantos do meu coração que a tranquilidade acabou.

Teria calado se não tivesse gritado quase em desespero para todos ouvirem.

Ficaria parada se meus pés não tivessem a urgência de correr e desbravar tuas emoções ao limite.

Seria calma se pudesse apaziguar as tormentas dentro de mim que trazem ventos avassaladores.

Tomaria mais tempo se pudesse dominar as horas.

Esperaria se pudesse aguentar a vontade que queima e não me deixa pensar.

Observaria o que não posso tocar.

Levaria, se não pudesse trazer.

Seria eu, se não fosse você.